sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Meu time, meu orgulho.

Das oito ruas de meu bairro, três tinham um time de futebol, mas pra ser sincero não acredito que nenhum tenha nos vencido tanto quanto nós os vencemos, éramos fortes e sempre buscávamos a vitoria, a preço de nos divertir sem se limitar e mesmo na derrota não baixaríamos a cabeça, pois a verdadeira vitoria era estar ali, unidos, amigos e felizes, mas claro que ninguém gosta de perder, talvez por isso as outras ruas sofreram tanto.  Nosso time tinha de tudo, do goleiro que era o menor do time, quando todos eram pequenos, um zagueiro gordinho que não correria atrás do atacante nem mesmo por meio metro, e eu, o único atacante que não vivia de gols, mas do sonho de um dia ser como os que via na televisão, éramos nós o verdinho, filhos de um pais tetra-campeão mundial. Nossa real rivalidade era com o time da ultima rua, eles nos venceram algumas vezes, tinha um galego desgraçado de habilidoso, mas não era o melhor de nosso bairro, do melhor de meu bairro falo um pouco mais, mas depois, no time da ultima rua tinham pelo menos três ótimos jogadores, incluindo o galego encapetado  lembrando que o jogo tinha quatro na linha e um no gol, assim eles tinham uma certa vantagem, até por que o um que sobrava também deveria ser um bom jogador, só não tanto quantos outros, um completa de time dos razoáveis, mas dos pontos principais de um time, eles não tinham o principal, união, talvez eles não fossem tão amigos como os garotos da minha rua, e nem sempre o individualismo ganharia o jogo para eles, sem contar que nós também tínhamos o nosso Pelé  que na nossa versão era gordinho, branquelo e só suava no nariz, mas tinha um futebol refinadíssimo e um chute potente nas duas pernas, um dos poucos ambidestros de meu tempo, que poderia com certeza ter sido um jogador profissional, mas a vida dá voltas que a gente talvez não possa controlar, mas isso não vem ao caso agora. Do nosso freguês, a primeira rua sofria, até por jogar mais vezes, e por termos tido um pouco mais de contato com eles, lembro que eles tinham o melhor e o pior jogador do nosso bairro, algo que poucos times poderiam juntar, era o time de um zagueiro esquerdo que não tinha força pra chutar a bola a um metro de distancia e que sempre falhava quando pressionado pela torcida, de um goleiro que odiava futebol e também o time de um dos maiores que já vi, um garoto magrelo, pequeno, porém altamente destemido, com dribles desconcertantes e uma velocidade que ia muito além do que nós eramos capazes de correr, e ainda assim corria com a bola nos pés, nosso zagueiro gordinho sonhava com ele todas as noites, sempre o mesmo sonho, onde ele arrancava em velocidade pelo lado do campo, driblava os três primeiros do nosso time puxava a bola para o meio ficando assim frente a frente com o zagueiro tonelada, esse sonho nunca se concluía e isso era o suficiente pra que ele tremesse de medo e pedisse pra nunca entrar nos jogos contra a primeira rua, assim sobrava mais espaço pro galã de nosso time, um zagueiro baixinho, loirinho, e que nem sabia se gostava tanto de futebol, só estava ali pela fama, pelos gritos das meninas e por seu nome entoado depois de um desarme pra cima de um atacante qualquer, só que na realidade isso nunca chegou realmente acontecer, apesar de magro também era lento, não tinha noção nenhuma de como desarmar e ainda comprou uma chuteira com cravos das que se joga em campo de grama pra jogar em nosso campo, nosso campo sempre foi a rua. Das garotas de nossa idade, em nossa rua só havia uma, mas junto com suas amigas de outros lugares, iam a todos os nossos jogos, sendo eles na primeira rua, na ultima rua ou mesmo em nossa própria casa.  No nosso time o mais importante sempre foi a união, talvez por isso nossa disciplina em campo fosse invejada pelos outros, acho que nós naquele tempo já jogávamos um futebol moderno, até mesmo eu, baixinho e barrigudo tentava ajudar na marcação, nem sempre surtia efeito, mas eu tentava, eu tava mais pra uma especie de Romário em final de carreira, ficava na barraca esperando a bola chegar, os gols, as vezes saiam, eu não era titular, mas tava sempre entrando e fazendo os meus gols, sei que o assunto é futebol, mas de verdade eu não consigo lembrar de nenhum esporte que eu tenha sido o melhor, eu não era o que tinha a melhor coordenação motora, mas por outro lado fui o primeiro que aprendi a ler, talvez uma coisa compense a outra. Voltando ao time de minha rua, não sei se vou conseguir falar das características de todos, talvez alguns nem isso tinham, falo em respeito ao futebol, algo que é de se levar em conta, é que nós tínhamos dois jogadores que não moravam em minha rua, eram da ultima rua, dois primos, em nada se pareciam, na verdade um parecia ser o contrario do outro, um moreno, outro galego, um esquerdo, outro direito, um falador e um mais calado, mas pra ser sincero, talvez não tivéssemos conseguido tantas vitorias sem eles, deram o suporte que faltava a nossa megalomania em achar que um dia poderíamos todos jogar juntos em um time grande de futebol, que por aqui só tinha um e vocês sabem qual é!

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