Das oito ruas de meu bairro, três tinham um time de futebol, mas pra ser sincero não acredito que nenhum tenha nos vencido tanto quanto nós os vencemos, éramos fortes e sempre buscávamos a vitoria, a preço de nos divertir sem se limitar e mesmo na derrota não baixaríamos a cabeça, pois a verdadeira vitoria era estar ali, unidos, amigos e felizes, mas claro que ninguém gosta de perder, talvez por isso as outras ruas sofreram tanto. Nosso time tinha de tudo, do goleiro que era o menor do time, quando todos eram pequenos, um zagueiro gordinho que não correria atrás do atacante nem mesmo por meio metro, e eu, o único atacante que não vivia de gols, mas do sonho de um dia ser como os que via na televisão, éramos nós o verdinho, filhos de um pais tetra-campeão mundial. Nossa real rivalidade era com o time da ultima rua, eles nos venceram algumas vezes, tinha um galego desgraçado de habilidoso, mas não era o melhor de nosso bairro, do melhor de meu bairro falo um pouco mais, mas depois, no time da ultima rua tinham pelo menos três ótimos jogadores, incluindo o galego encapetado lembrando que o jogo tinha quatro na linha e um no gol, assim eles tinham uma certa vantagem, até por que o um que sobrava também deveria ser um bom jogador, só não tanto quantos outros, um completa de time dos razoáveis, mas dos pontos principais de um time, eles não tinham o principal, união, talvez eles não fossem tão amigos como os garotos da minha rua, e nem sempre o individualismo ganharia o jogo para eles, sem contar que nós também tínhamos o nosso Pelé que na nossa versão era gordinho, branquelo e só suava no nariz, mas tinha um futebol refinadíssimo e um chute potente nas duas pernas, um dos poucos ambidestros de meu tempo, que poderia com certeza ter sido um jogador profissional, mas a vida dá voltas que a gente talvez não possa controlar, mas isso não vem ao caso agora. Do nosso freguês, a primeira rua sofria, até por jogar mais vezes, e por termos tido um pouco mais de contato com eles, lembro que eles tinham o melhor e o pior jogador do nosso bairro, algo que poucos times poderiam juntar, era o time de um zagueiro esquerdo que não tinha força pra chutar a bola a um metro de distancia e que sempre falhava quando pressionado pela torcida, de um goleiro que odiava futebol e também o time de um dos maiores que já vi, um garoto magrelo, pequeno, porém altamente destemido, com dribles desconcertantes e uma velocidade que ia muito além do que nós eramos capazes de correr, e ainda assim corria com a bola nos pés, nosso zagueiro gordinho sonhava com ele todas as noites, sempre o mesmo sonho, onde ele arrancava em velocidade pelo lado do campo, driblava os três primeiros do nosso time puxava a bola para o meio ficando assim frente a frente com o zagueiro tonelada, esse sonho nunca se concluía e isso era o suficiente pra que ele tremesse de medo e pedisse pra nunca entrar nos jogos contra a primeira rua, assim sobrava mais espaço pro galã de nosso time, um zagueiro baixinho, loirinho, e que nem sabia se gostava tanto de futebol, só estava ali pela fama, pelos gritos das meninas e por seu nome entoado depois de um desarme pra cima de um atacante qualquer, só que na realidade isso nunca chegou realmente acontecer, apesar de magro também era lento, não tinha noção nenhuma de como desarmar e ainda comprou uma chuteira com cravos das que se joga em campo de grama pra jogar em nosso campo, nosso campo sempre foi a rua. Das garotas de nossa idade, em nossa rua só havia uma, mas junto com suas amigas de outros lugares, iam a todos os nossos jogos, sendo eles na primeira rua, na ultima rua ou mesmo em nossa própria casa. No nosso time o mais importante sempre foi a união, talvez por isso nossa disciplina em campo fosse invejada pelos outros, acho que nós naquele tempo já jogávamos um futebol moderno, até mesmo eu, baixinho e barrigudo tentava ajudar na marcação, nem sempre surtia efeito, mas eu tentava, eu tava mais pra uma especie de Romário em final de carreira, ficava na barraca esperando a bola chegar, os gols, as vezes saiam, eu não era titular, mas tava sempre entrando e fazendo os meus gols, sei que o assunto é futebol, mas de verdade eu não consigo lembrar de nenhum esporte que eu tenha sido o melhor, eu não era o que tinha a melhor coordenação motora, mas por outro lado fui o primeiro que aprendi a ler, talvez uma coisa compense a outra. Voltando ao time de minha rua, não sei se vou conseguir falar das características de todos, talvez alguns nem isso tinham, falo em respeito ao futebol, algo que é de se levar em conta, é que nós tínhamos dois jogadores que não moravam em minha rua, eram da ultima rua, dois primos, em nada se pareciam, na verdade um parecia ser o contrario do outro, um moreno, outro galego, um esquerdo, outro direito, um falador e um mais calado, mas pra ser sincero, talvez não tivéssemos conseguido tantas vitorias sem eles, deram o suporte que faltava a nossa megalomania em achar que um dia poderíamos todos jogar juntos em um time grande de futebol, que por aqui só tinha um e vocês sabem qual é!
Não escreva pra mim romuloin
Contos, cartas não mandadas e um tanto de desatino.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Sobre melhores amigos.
De todos os melhores amigos, ele foi o meu primeiro melhor amigo, nos tempos em que as embalagens de cigarro funcionavam como cédula para aposta qualquer fosse o jogo. Nossa dupla era quase perfeita, ele com um poder incrível de persuadir e eu com um mais incrível de ser persuadido, a gente se dava realmente muito bem. Tirando as bobagens de lado, a gente se dava mesmo muito bem, esse lance de persuasão é só alienação imposta em mim pela sociedade, a gente se aceitava como era, e de algum modo nos importávamos com o que o outro achava, como se a presença do outro nos deixasse mais forte. Se ia jogar dominó, a gente era uma dupla, se íamos jogar futebol de barrinha, a gente formava o time, tentávamos encaixar esse lance de ser dupla em quase todos os jogos, e nos entendíamos como todos os melhores amigos se entendem, as vezes sem precisar dizer nenhuma palavra, assim como quando precisava-se de uma certa peça a ser lançada à mesa no dominó. Ele, dois anos mais velho que eu, eu dois anos mais novo que ele, eu tinha a idade de seu irmão do meio, o que teoricamente me aproximaria à seu irmão, o que não aconteceu, lance de incompatibilidade, sabe? Esse se ajeitou como melhor amigo do meu irmão que hoje também é o do meio entre os filhos de minha mãe, mas nesse tempo não existiam os mais novos que hoje existem e os dois aprontaram poucas e boas, mas se o assunto é melhores amigos, o meu amigo e eu, éramos a peste bobonica do sertão e ninguém no mundo ia nos vencer, seja qual fosse o jogo.
Mas o que falar de um melhor amigo? De verdade ele era um cara leal, a nossa cordialidade era incrível sempre tentávamos dar uma força ao outro, buscando sempre melhorar no conjunto e por aí a gente ia se virando, é o tipo de caso de que se um tá soltando a pipa, o outro enrola a linha. Se nossa rua era a Meca do bairro, nós sempre iramos ser os caras da rua! Mas fora o nosso individualismo, apesar de melhores amigos, fazíamos parte de um grupo e dentro do grupo era nós contra todos, mas se assunto fosse extra-rua, seria um por todos e todos por um, melhores amigos à parte, sempre fomos uma equipe e desbravar a vida aos treze é algo pra que realmente tem coragem e assim éramos nós, rompendo as barreiras do que achávamos ser impossível, algo como cortar oito pipas e não ser cortado uma vez no inicio da tarde de uma sexta.
A maior rua do universo.
Dessa lembrança sei que muitos compartilham, pois de uma rua com historias infinitas as infâncias estão cheias.
Uma rua como tantas outras esburacadas de uma cidade tão pequena que do começo já dava pra enxergar o final, mas nessa cidade pequena algo de grande tinha que haver e o que de maior existia com certeza era minha rua, onde nasci, cresci e vivi à maior rua que o universo foi capaz de criar, os duzentos e cinquenta metros mais longos que no mundo há de existir. As árvores eram poucas, mas as que tinhamos eram suficientes para nos alimentar depois do futebol com traves de sandália e com bola de plástico estrategicamente praticado na parte do meio da rua , só pra irritar a vizinha que teimava em cortar nossas dente de leite pelo simples fato de ir pelo sentido contrario ao que acreditávamos ser diversão. Nem todo mundo nasce com o dom de saber viver, essa nossa vizinha deve ter sido alguém que penou pra aprender, acredito eu que o portão dela era mais importante que os olhos brilhando do cara que marcou o primeiro gol do dia. O meio do campo era nossa linha do equador, cortava a rua ao meio bem no centro dela, alguns inimigos e muitos amigos nos extremos, pólos bem diferentes pra ser sincero. Cada um com um apelido, ninguém se conhecia por nome, cada um com sua alcunha assim como um guerreiros deveriam se conhecer, defendíamos como poucos defenderiam seu habitat, e esse era o nosso, a terra dos maiores campeões, no futebol , na pipa e no pião, bola de gude, badoque e latão, não éramos muitos, apenas oito, e esse era o nosso chão, a maior transversal do meu bairro, a única rua que cortava o bairro inteiro, de um lado ao outro, de certo modo éramos pedaço de todos e todos eram pedaços de nós, assim éramos a meca de meu bairro, a maior rua que numa cidade sem suportes poderia assim ter.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Dos meus medos.
Ao longo dos meus indeléveis 24 anos de idade que por vezes mais parecem ter um zero a menos no final, obtive vitorias e derrotas como qualquer ser vivo, andei por caminhos pelos quais não quis andar, busquei coisas quais tempos depois pareceram perder o sentido, fiz e vivi, carreguei comigo uma lista não tão extensa assim de amores e paixões mal resolvidas, mas que com os dias vão se tornando densas demais pra se carregar.
Pensei em dizer sem medo e lembrei que algo que colecionei nesse tempo com um pouco mais de zelo foram meus medos, mesmo quando a vida me mostrou que pra se provar coragem é preciso de uma situação adversa, assim me joguei com furor em uma zona de conforto pra tentar de certo modo me defender dos males que a vida poderia me causar construindo eu meu próprio mal. Algumas pessoas assim como eu levam à sério demais o quesito morte, por medo, receio , que abdicam de viver. Algo como a historia de um cara que por medo de morrer decidiu se esconder, se atando a ilusão de acreditar que de certa forma deixar de viver vai lhe livrar de morrer, quando morrer é mal irremediável ou um bem incompreendido. Há quem diga que é o primeiro bem que obtemos, um presente recebido ao nascer, é sim saber que somos perecíveis, mas sem data de validade pré-estabelecida.
Por muito fui contra acatar algumas incumbências da vida, as vezes por medo, outros vezes nem tanto, achando que assim iria eu guiar meus próprios passos, pois a sensação de perca de controle me deixava apavorado.
Com os medos bem estabelecidos em meus pensamentos não foi difícil abrir mão de coisas comuns, como ver um jogo no campo, ou uma festa com os amigos, posso dizer que se tem algo que mudou a minha vida, foi o medo, não que me orgulhe disso e até hoje tento desarmar essa bomba que em mim instalei. Mas na vida cara amigo, na vida, não podemos guiar assim à mão de ferro, e isso era algo que eu precisava aprender,e só os dias para me mostrar que estar errado, por vezes é pode ser certo e ao estar certo pode sim se estar errado.
Deverei eu recolher meus sentimentos, balancear minhas tristezas junto às felicidades, acreditar sempre que a verdade é um bem mutável e que a vida, só precisa ser vivida, pois de resto nada se leva, apenas se possui, já dos medos, não quero deles me livrar, só preciso aprender a valorizar também outros acontecimentos.
Pensei em dizer sem medo e lembrei que algo que colecionei nesse tempo com um pouco mais de zelo foram meus medos, mesmo quando a vida me mostrou que pra se provar coragem é preciso de uma situação adversa, assim me joguei com furor em uma zona de conforto pra tentar de certo modo me defender dos males que a vida poderia me causar construindo eu meu próprio mal. Algumas pessoas assim como eu levam à sério demais o quesito morte, por medo, receio , que abdicam de viver. Algo como a historia de um cara que por medo de morrer decidiu se esconder, se atando a ilusão de acreditar que de certa forma deixar de viver vai lhe livrar de morrer, quando morrer é mal irremediável ou um bem incompreendido. Há quem diga que é o primeiro bem que obtemos, um presente recebido ao nascer, é sim saber que somos perecíveis, mas sem data de validade pré-estabelecida.
Por muito fui contra acatar algumas incumbências da vida, as vezes por medo, outros vezes nem tanto, achando que assim iria eu guiar meus próprios passos, pois a sensação de perca de controle me deixava apavorado.
Com os medos bem estabelecidos em meus pensamentos não foi difícil abrir mão de coisas comuns, como ver um jogo no campo, ou uma festa com os amigos, posso dizer que se tem algo que mudou a minha vida, foi o medo, não que me orgulhe disso e até hoje tento desarmar essa bomba que em mim instalei. Mas na vida cara amigo, na vida, não podemos guiar assim à mão de ferro, e isso era algo que eu precisava aprender,e só os dias para me mostrar que estar errado, por vezes é pode ser certo e ao estar certo pode sim se estar errado.
Deverei eu recolher meus sentimentos, balancear minhas tristezas junto às felicidades, acreditar sempre que a verdade é um bem mutável e que a vida, só precisa ser vivida, pois de resto nada se leva, apenas se possui, já dos medos, não quero deles me livrar, só preciso aprender a valorizar também outros acontecimentos.
Assinar:
Comentários (Atom)